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O Coro dos Gatos em Julgamento

O coro dos gatos em julgamento

 

             As notícias jornalísticas do século passado continuam a surpreender o leitor contemporâneo. É o caso de matéria veiculada no Jornal do Brasil, em 17 de abril de 1971. No antigo Estado do Rio de Janeiro, um litígio judicial envolvendo reclamação de um morador contra a presença de gatos em seu edifício produziu argumentos inesperados na 3ª Vara Cível da comarca de Niterói.

            O morador de um apartamento reclamava do barulho noturno provocado por inúmeros gatos supostamente pertencentes a um vizinho, conhecido seu de longa data, assim como do mau cheiro que geravam. Refutando as acusações, o suposto dono dos animais afirmou que os únicos gatos que teve ficavam em sua estante, enriquecendo-a: tratava-se do livro Os Gatos, de Fialho de Almeida, que, por sinal, havia sido roubado anos atrás!

           O advogado do demandado, insistindo que os animais não pertenciam a seu cliente, argumentou que se o queixoso se considerava prejudicado com a presença deles que procurasse os verdadeiros proprietários. No entanto, ressaltou que distingui-los seria uma tarefa difícil ou mesmo impossível, porque, à noite, 'todos os gatos são pardos'!

           Manifestou-se também o juiz Sílvio de Araújo, titular da Vara, compositor de sambas, valsas e baiões, além de poeta e admirador dos gatos, prevendo que a audiência seria uma das mais pitorescas dos últimos 30 anos. Afirmou que nem todos compreendem o comportamento desses animais, os quais, à semelhança dos humanos, buscam locais adequados para consumarem o que chamou de 'realce aos idílios, enleios românticos e o indefectível epílogo'.

           Ainda segundo o jornal, o magistrado acrescentou que 'impedir o livre exercício da função de amar e, na hipótese dos gatos, o seu exclusivo modo, seria atentar contra o amor'. E, para esclarecer os fatos, determinou a realização de perícia, preferencialmente de madrugada, apesar das dificuldades apontadas, de forma irônica, pelo advogado.

            O resultado do julgamento é desconhecido, mas certamente os defensores dos ruidosos encontros noturnos dos felinos passaram a ter bons argumentos para justificá-los perante uma vizinhança sobressaltada.