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Os antigos (e inconvenientes) vizinhos do Palácio da Justiça

Década de 30 do século passado. Bares, botecos, bodegas, vendinhas, barbearias, funcionavam nos velhos casebres espalhados pelos becos e vielas da Rua Dom Manuel e adjacências. O estranho cenário, vizinho ao Palácio da Justiça, era permeado pela violência e ilegalidade. Um local onde ocorria de tudo um pouco, como pesquisadores do Museu da Justiça encontraram em jornais e documentos da época.

O Diário Carioca, por exemplo, publicou em uma edição de janeiro de 1930 que num mesmo estabelecimento, o proprietário identificado como Antonio cortava cabelo, fazia barba e arrancava dentes. Tudo isso bem em frente ao Palácio. A prática era comum desde os tempos coloniais, quando os barbeiros exerciam as funções de dentista e até de médico. Muito provavelmente, Antônio fazia a alegria da clientela, já que resolvia diferentes problemas de uma só vez. Mas o fato é que o dito "cirurgião" estava descumprindo o Código Penal de 1890, então em vigor.

Em janeiro do ano seguinte, outro caso inusitado ocorreu ao lado do prédio. Uma "estúpida cena de sangue" (palavras dos jornais da época) ganhou destaque. Uma discussão entre os proprietários do bar e restaurante A Garota do Foro acabou se transformando numa violenta briga, tendo um deles agredido, a golpes de navalha, o seu parceiro de negócios. Para defender a vítima, um empregado do bar deu uma cadeirada na cabeça do agressor, que, descontrolado, começou a se golpear com a própria navalha. Testemunhas alarmadas chamaram um guarda-civil, que acabou com a confusão. Os dois sócios, gravemente feridos, foram hospitalizados. E A Garota do Foro, que encantava os seus clientes, e - quem poderia imaginar!? - serviria de inspiração a tantos outros bares da cidade, foi fechado pela polícia.

O comportamento da vizinhança incomodava os magistrados que trabalhavam no Palácio da Justiça. Em fevereiro de 1940, o presidente do Tribunal de Apelação do Distrito Federal, desembargador Vicente Piragibe, encaminhou um relatório ao ministro da Justiça, Francisco Campos. No documento, ele é direto ao falar da "série de pardieiros que se enfileiram na parte fronteira ao Palácio da Justiça, em cujos andares, habitados por famílias, aparecem os dormitórios com os leitos ocupados por pessoas que se dedicam ao trabalho noturno". Enfatiza a necessidade da demolição desses prédios. A afirmação já havia sido feita, anteriormente, pelo presidente Getúlio Vargas, ao fazer uma visita à sede do Tribunal. Os tais "pardieiros" foram, então, demolidos, desaparecendo para sempre da vista que se tinha das janelas do Palácio.

Os antigos (e inconvenientes) vizinhos do Palácio da Justiça
 

O Museu da Justiça fica na Rua Dom Manuel, 29 - Centro - Rio de Janeiro - RJ, dentro do Antigo Palácio da Justiça.
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