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Lideranças Quilombolas do Rio de Janeiro: História e Resistência
Sobre a exposição
A mostra é dedicada ao protagonismo das mulheres quilombolas na construção da história, da cultura e das lutas por direitos no Brasil. Realizada em parceria com a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (COEM), a exposição reúne conteúdos históricos, fotografias, vídeos e instalações interativas que destacam trajetórias marcadas pela resistência, pela ancestralidade e pela defesa dos territórios quilombolas. De Dandara dos Palmares a Dona Eva e Tia Uia, a mostra apresenta ao público histórias de importantes lideranças quilombolas do passado e presente que são referências fundamentais na luta pelo reconhecimento e preservação das comunidades quilombolas no estado do Rio de Janeiro. Além disso, divulga a fundamental atuação da Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ) e do projeto “Dandara: Vozes Quilombolas pela Justiça” na contemporaneidade. Ao conectar memória, justiça social e valorização das culturas afro-brasileiras, a exposição reafirma o compromisso do Museu da Justiça com a preservação da memória e com o fortalecimento de reflexões sobre igualdade racial e de gênero, direitos e democracia.
Texto da curadoria
A exposição Lideranças Quilombolas do Rio de Janeiro: História e Resistência nasceu do reconhecimento de que a história do Brasil não pode ser plenamente compreendida sem o protagonismo das mulheres negras e quilombolas. Desde o início, a proposta foi construir uma narrativa que articulasse passado e presente, apresentando os quilombos não apenas como espaços históricos de enfrentamento à escravização, mas como comunidades vivas que seguem atuando na defesa de seus territórios, culturas e direitos. A mostra busca ampliar o conhecimento do público sobre a contribuição dessas mulheres, destacando seu papel na formação das comunidades, na preservação dos saberes ancestrais e na construção de estratégias coletivas de resistência.
O projeto resultou de uma parceria entre a Desembargadora Adriana Ramos de Mello, coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (COEM), o Núcleo de Promoção de Políticas Especiais de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar (NUPEVID) e o Museu da Justiça. A iniciativa reuniu diferentes experiências institucionais em torno de um objetivo comum: valorizar as trajetórias das mulheres quilombolas e aproximar o sistema de justiça das demandas históricas e atuais dessas comunidades. Coube ao Museu da Justiça transformar essa proposta em uma experiência museológica, integrando pesquisa histórica, produção textual, imagens, recursos audiovisuais e elementos interativos. Esse trabalho só foi possível através do diálogo com Ana Beatriz Nunes, líder quilombola e presidenta da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ), cuja atuação é fundamental para a articulação política, a defesa territorial e o fortalecimento das identidades quilombolas no estado.
A pesquisa que fundamenta a exposição procurou compreender a resistência quilombola como um processo histórico contínuo. Partimos da experiência de Palmares e de figuras como Dandara, Aqualtune e Acotirene, mulheres cuja atuação política, militar e comunitária foi frequentemente invisibilizada pelas narrativas historiográficas tradicionais. Ao mesmo tempo, procuramos expandir esse olhar para além do período colonial, aproximando essas trajetórias das experiências de lideranças contemporâneas. Nesse contexto, destacam-se Dona Eva e Tia Uia, do Quilombo da Rasa, apresentadas como guardiãs da memória, articuladoras comunitárias e protagonistas das lutas pelo reconhecimento territorial e pela garantia de direitos. A pesquisa também contemplou a atuação da ACQUILERJ e o Projeto Dandara: Vozes Quilombolas pela Justiça, iniciativa voltada à criação de espaços permanentes de escuta, diálogo e aproximação entre as comunidades quilombolas e as instituições públicas.
O argumento curatorial pode ser sintetizado na frase: “A Dandara de ontem é a Dandara de hoje.” A resistência das mulheres quilombolas não se encerrou com a destruição de Palmares nem com a abolição formal da escravidão. Ela atravessou os séculos e permanece presente nas lutas pelo território, pela memória, pelo acesso à justiça, pela preservação cultural e pela autonomia das comunidades. A exposição foi estruturada em três eixos que orientam o percurso do visitante: História, Luta e Resistência. O primeiro apresenta a formação dos quilombos e a centralidade das lideranças femininas; o segundo aborda as comunidades contemporâneas, suas formas de organização e suas principais representantes; e o terceiro evidencia a vitalidade da cultura quilombola, convidando o público a refletir sobre o significado de resistir para existir.
Acredito que o impacto social da exposição está em todo potencial de deslocar perspectivas. Ao colocar essas mulheres no centro da narrativa, a mostra contribui para enfrentar silenciamentos históricos e reafirmar que a luta quilombola não é um tema que ficou no passado. Essa luta permanece viva nas disputas por território, dignidade, igualdade racial e acesso a direitos. Em um espaço vinculado ao Poder Judiciário, a reflexão ganha relevância adicional, ao estimular o debate sobre as responsabilidades das instituições públicas diante das desigualdades historicamente produzidas e perpetuadas na sociedade brasileira. Dessa forma, a exposição também se configura como uma ação de educação antirracista, capaz de promover o diálogo sobre as relações entre raça, gênero, memória e justiça.
Para mim, realizar esta curadoria foi uma experiência de grande responsabilidade e aprendizado. Trabalhar com histórias atravessadas pela violência, luta, ancestralidade e construção coletiva exigiu escuta atenta, sensibilidade e respeito. O principal objetivo foi construir uma narrativa que reconhecesse essas mulheres como sujeitos políticos, produtoras de conhecimento, guardiãs de tradições e agentes de transformação social. Foi também uma oportunidade de evidenciar o papel social do Museu da Justiça como espaço de encontro, reconhecimento e reflexão crítica sobre o passado e o presente.
Convido todas e todos a visitarem o Museu da Justiça e conhecerem a exposição Lideranças Quilombolas do Rio de Janeiro: História e Resistência. Espero que o público percorra essas histórias com abertura para ouvir, aprender e reconhecer a força de mulheres que, ontem e hoje, transformam memória, coletividade e luta por direitos em expressões permanentes de resistência.
Lydia de Carvalho, historiadora do Museu da Justiça e Curadora da Exposiçao
Serviço
A exposição pode ser visitada presencialmente, de segunda à sexta, das 11h às 17h.
Exposição Lideranças Quilombolas do Rio de Janeiro: História e Resistência
De segunda a sexta, das 11 às 17h
Museu da Justiça
Rua Dom Manuel, 29, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Indicação etária: Livre
Entrada Franca
Realização: TJRJ | SGCOM | MUSEU



