Dia Nacional da Doação de Órgãos: a esperança que renasce com o transplante
Após a recuperação de um transplante de coração, Alexandre Bruck conheceu Arraial do Cabo com a família
Em diferentes culturas, o coração, músculo responsável por bombear sangue para o corpo continuamente, adquire diferentes simbologias. No Ocidente, representa sentimentos ligados ao amor, à paixão e à amizade. No Oriente, é associado ao conhecimento, à sabedoria e à inteligência. Em diversas tradições religiosas, ele também é visto como algo sagrado. E, quando esse órgão, vital para a manutenção da vida, falha, tudo ao redor colapsa.
Essa foi uma experiência que o vendedor Alexandre Antônio Bruck vivenciou em 2022, quando descobriu que seu coração havia perdido gravemente a função e que precisava de um novo órgão para continuar vivo. Gerente em uma loja de eletrodomésticos emPetrópolis, Região Serrana do Rio, Alexandre tinha uma vida parecida com a de qualquer trabalhador: passava a maior parte do tempo no trabalho, não fazia academia ou exercícios físicos, e o tempo que restava, compartilhava com amigos e familiares.
A necessidade do transplante
Alexandre, no entanto, viu a sua vida, lentamente, se esvair. “Comecei a me cansar muito rapidamente, mesmo percorrendo curtas distâncias, chegando ao ponto de, até em repouso, estar cansado. Minhas pernas ficaram muito inchadas, e eu não conseguia mais andar como antes. Sentia frequentemente um mal-estar", relembrou Alexandre.
Ao procurar ajuda especializada, foi constatado que era necessário um transplante. Alexandre era um dos 340 brasileiros que precisavam de um novo coração naquele ano. Em 2022, o total de pacientes ativos na lista de espera para transplante de órgãos no país foi de 52.989, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
Alexandre foi transferido para um hospital em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, e, apesar de o seu estado de saúde ser grave e de os médicos solicitarem a transferência para um hospital especializado em transplante cardíaco, seu plano de saúde havia se recusado a cobrir o procedimento.
Corrida contra o tempo
Os irmãos de Alexandre, Aquiles e Michele Bruck, procuraram a empresa e o hospital para tentar resolver a questão e, assim, agilizar o tratamento e a transferência, já que a saúde dele piorava a cada dia, porém o plano de saúde permanecia irredutível. Os irmãos precisaram, então, entrar com uma ação judicial de obrigação de fornecimento de serviço com pedido de liminar no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) para que a solicitação médica fosse atendida.
“Embora, efetivamente, o transplante de coração não se inclua entre o rol editado pela Agência Nacional de Saúde, isso não autoriza a recusa da cobertura securitária. Tal rol é apenas exemplificativo, de modo que, não havendo exclusão expressa do procedimento ou de cobertura a determinada doença, está a operadora, sim, obrigada ao custeio dos procedimentos prescritos pelo médico assistente”, destacou a decisão do juízo da 3ª Vara Cível de Petrópolis.
Transplante de órgão em números
De acordo com a Divisão de Coleta e Tratamento de Dados de 1ª Instância (Dicol), somente de janeiro a agosto de 2025, 561 processos relacionados a transplante de órgãos foram ajuizados no Poder Judiciário fluminense. Segundo o Ministério da Saúde, 14,9 mil transplantes foram realizados no país no primeiro semestre de 2025. Atualmente, há 71.745 brasileiros que ainda aguardam uma doação, de acordo com dados da ABTO.
Uma nova esperança
Após a decisão judicial, logo nas primeiras horas da manhã do dia 15 de maio de 2022, um domingo, a equipe médica do Hospital São Lucas, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, se preparava para retirar Alexandre Antônio do coração artificial em que estava nas 48h anteriores e inserir o novo coração, doado na noite anterior após o falecimento de um paciente no mesmo hospital em que ele estava.
“Minha família esteve ao meu lado durante todo o processo por que passei. Sinto muita gratidão pela outra família ter aceitado doar o coração do rapaz. É muito triste para qualquer família perder um ente querido, mas, quando eles tomam a decisão de doar, eles dão vida a outra família. Eles me deram vida, uma nova chance, e sou grato a Deus, à minha família e à família do doador”, disse Alexandre, emocionado.
Depois da recuperação, com a liberação médica, Alexandre foi a um dos lugares de que mais sentia falta: a praia. Mas deveria ser um lugar diferente, afinal, precisava comemorar a nova vida. Arraial do Cabo,a na Região dos Lagos, foi o destino escolhido por ele e a família. Um lugar que, até então, não conhecia, mas onde pôde desfrutar de alegres momentos ao lado da mãe, Zuleica, da irmã, Michele, e do sobrinho e afilhado, Benício, celebrando a nova vida.
Processo: 0004921-02.2022.8.19.0042
KB/ SF