Desvendando a história: magistrados do TJRJ e de Angola visitam o Museu Memorial Pretos Novos
Novos magistrados do TJRJ e auditores magistrados angolanos conheceram o Museu Memorial Pretos Novos em aula do Curso de Formação Inicial da Carreira da Magistratura promovido pela Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj)
Quando dona Merced Guimarães comprou uma casa ao lado da sua, na Gamboa, e resolveu fazer uma reforma para ampliação do espaço, em 1996, não imaginava encontrar, por baixo do concreto e pedras, um enigma capaz de mudar sua vida e ajudar a compreender a profundidade da história do Brasil. No quebra-quebra da obra pedreiros acharam no local ossos humanos partidos, triturados e queimados. Merced descobriu, então, que sua casa foi construída em cima de um antigo cemitério. Estima-se que o Cemitério dos Pretos Novos, ativo de 1772 a 1830, tenha recebido aproximadamente 30 mil corpos de africanos que morreram ao chegar no Brasil.
E foi neste lugar que os novos juízes do Tribunal de Justiça do Rio, empossados em outubro de 2025, e uma turma de auditores magistrados angolanos concluíram mais uma aula do Curso de Formação Inicial da Carreira da Magistratura, promovido pela Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj). A proposta da capacitação, de acordo com o professor da Emerj e juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), Gustavo Quintanilha, é apresentar a cultura institucional do Poder Judiciário do Rio de Janeiro aos novos magistrados.
O encontro foi realizado nesta sexta-feira, 23 de janeiro, em parceria com os Comitês de Promoção da Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual e da Discriminação (Cogens - 1º e 2º Graus), integrados ao Núcleo de Atenção e Promoção à Justiça Social (Napjus) e com a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra no Brasil da OAB/RJ (Cevenb), representada por seu presidente, o advogado Humberto Adami.
Após a aula no Museu, os magistrados do Rio e de Angola posaram para foto na frente da instituição que resguarda parte da história da escravidão na Zona Portuária da cidade
O Rio de Janeiro em outros tempos
Antes de ir ao antigo cemitério, atualmente nomeado como Museu Memorial Pretos Novos, os novos juízes conheceram, em sala de aula, o circuito Pequena África - um trajeto com pontos históricos na Zona Central do Rio relacionados à chegada de escravizados oriundos de África. A aula, ministrada pela servidora e turismóloga Tatiana Brandão, apresentou a Cidade do Rio nos séculos XVIII e XIX e as tentativas de apagamento da escravidão na geografia da cidade.
Para o presidente do Cogen 1º Grau, desembargador Wagner Cinelli, é fundamental que operadores do Direito saibam a história do país. “A Trilha da Memória é uma oportunidade para conhecermos o que aconteceu na nossa nação séculos atrás. O Brasil viveu um período de escravização que durou quase quatrocentos anos e que deixou marcas profundas em nossa sociedade. É necessário que os magistrados conheçam essa história, que até então, era pouco conhecida.”
Para Maria Lívia Fonseca, uma das novas juízas que conheceram o museu, a realização da aula no espaço demonstra a preocupação do Tribunal de Justiça em pautar a valorização da cultura negra. “Ao longo da formação da nossa cultura, a história do povo negro foi apagada e oculta de nós por ser baseada na dor, no sofrimento e na morte. Porém, ter uma aula dentro desse ambiente traz um simbolismo da importância da cultura da população negra e africana para o Brasil.”
De Angola para o Brasil
Ondina Garcia é auditora magistrada de Angola e está em intercâmbio no Brasil. Durante a visita, ela apontou, a partir de um olhar positivista, a diversidade cultural presente no país. “Como africana e angolana que sou, recuei no tempo ao ver os registros da escravidão no Brasil. A escravatura foi um momento muito triste e doloroso, mas, ao mesmo tempo, resultou em uma mistura e intercâmbio de culturas. Essa multicultura está presente na música, na alimentação e em outros aspectos”.
Ao final da visita, os auditores magistrados angolanos receberam do Museu Memorial os livros "O Cais e o Cemitério", "A Morte no Valongo" e "Silêncios que Gritam" – uma trilogia publicada pela Editora Letra Capital que apresenta o resultado das pesquisas obtidas no sítio arqueológico do Instituto Pretos Novos.
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Fotos: Brunno Dantas/TJRJ