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Apresentação final de peça sobre violência contra a mulher traz reflexões sobre como combatê-la
Notícia publicada por Secretaria-Geral de Comunicação Social em 12/03/2026 09h58

                                                                             Atores principais em cena de peça sobre violência doméstica
 

Como tantas mulheres que sonham com um grande amor para a vida toda, Luana conheceu seu “príncipe encantado” em um pôr do sol à beira-mar e jamais poderia imaginar que aquele conto de fadas poderia se transformar no seu maior pesadelo. A peça O Último Dia, que retrata a história da personagem e sua luta contra a violência doméstica, teve sua última apresentação no Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ) realizada nesta quarta-feira, 11 de março, e, agora, seguirá com apresentações no Centro Cultural da Justiça Federal no mês de abril.

Baseada no livro homônimo do presidente do Comitê de Promoção de Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual e da Discriminação no 1º Grau de Jurisdição (Cogen– 1º Grau), desembargador Wagner Cinelli, em coautoria com Mariana Reade, a obra, que conta sobre o relacionamento entre Luana e Juca, do primeiro ao último encontro, traz importantes reflexões sobre questões como o limite do ciúme, como começa um relacionamento abusivo, a importância da independência financeira da mulher, o impacto cultural da criação feminina de minimizar comportamentos agressivos masculinos e a escalada da violência. Graças às agressões sofridas, a jovem Luana, antes alegre e cheia de planos, vai, aos poucos, se transformando em uma mulher fechada e repleta de medo e dor.

Mesmo com a ajuda da sua mãe, Iolanda (interpretada por Ana Carbatti), e da melhor amiga, Isabel (atriz Julia Tupinambá), Luana tem muita dificuldade de denunciar o agressor e sair do ciclo de violência e “lua de mel”, em que o homem pede perdão, promete mudar e diz amar a vítima, que acredita que tudo pode mudar.  Com direção de Paulo Reis, a peça mostra que, para a mulher, desistir pode ser sentido como fracasso, ainda que seu principal bem – sua vida – esteja em risco, muitas vezes minimizado por estas supostas demonstrações de amor.

Magistrados e convidados compareceram à peça O Último Dia, baseada em livro homônimo do desembargador Wagner Cinelli e Mariana Reade

O impacto da violência

Tainá Senna, que deu vida à personagem principal, conta como foi, para ela, assumir este papel. “É uma senhora responsabilidade. Lembro que, quando vi o texto, pensei: ‘nossa, essa história é forte’. É uma realidade que acontece diariamente com várias mulheres, é um alerta muito grande que a gente precisa passar”, destacou. Assim como Luana – que, na infância, teve uma vizinha vítima de violência doméstica – a atriz conta que, ao longo dos seus 30 anos, já presenciou situações de violência tanto com outras mulheres quanto com ela própria e ressaltou que, muitas vezes, elas passam despercebidas. “A gente acha que é comum, que é um comportamento masculino e, por isso, é aceitável. Durante a vida inteira, somos ensinadas a ficarmos quietas. Tem muitas situações de que me lembro e que fazem parte da construção da personagem também”, compartilhou.

Segundo o ator Eduardo Hoffmann, que interpreta o violento Juca, esta é uma pauta com a qual ele já se preocupa há bastante tempo. “Eu já me sentia próximo do assunto, sou artista e professor de teatro na rede pública municipal. Tenho acompanhado alunos meus apresentando uma mudança desde a pandemia, uma volta de um pensamento machista que, até então, parecia ter diminuído e que voltou com força total. Acho que é um tema muito importante, que ainda reproduz este tipo de pensamento porque continua acontecendo todo dia, por mais que isto esteja sendo falado”. Para ele, a educação é a saída para combater a violência contra a mulher. “Estava nesta semana conversando com colegas sobre como temos que parar a aula para não fingir que não ouvimos certas coisas, a piadinha, que é pequena, mas começa nela, é uma escalada, como a peça vai mostrando. É uma coisa que, isolada, parece pequena, mas, no contexto geral, gera algo grave”, ressaltou.

                                                            Atores Tainá Senna e Eduardo Hoffmann interpretaram o casal Luana e Juca

O desembargador Wagner Cinelli, que assistiu às quatro apresentações da peça no CCPJ, contou que cada uma das vezes em que viu foi impactado de um modo diferente. “Considero este tema fundamental para a nossa sociedade. Nós estamos, infelizmente, muito atrasados ainda, a mulher está em uma situação de desvantagem na estrutura social, que é antiga, é histórica. E a gente não pode mais esperar. Essa vulnerabilidade, essa situação de opressão faz dela vítima de tanta violência dirigida, de gênero”, afirmou.

Empoderamento feminino

Para o magistrado, é de grande importância que a mulher esteja cada vez mais empoderada. “Participando do mercado de trabalho e, mais do que isso, ocupando espaços de poder nos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário - e na iniciativa privada também, como CEOs de empresas, conselheiras, diretoras. Quanto mais empoderada a mulher estiver, tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista coletivo, menos sujeita ela estará à violência. Essa é a estrada para a gente encontrar essa igualdade”, afirmou, compartilhando que, em um artigo que escreveu recentemente, vislumbra o fim da violência contra a mulher. “Imagino, em um mundo hipotético, que, exatamente em 8 de março de 2076, daqui a meio século, a Lei Maria da Penha será revogada porque não será mais necessária. Mas, a gente não chegou ainda nesse futuro”, disse.

Para a 1ª vice-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), desembargadora Suely Lopes Magalhães, esta tem sido a realidade feminina. “A peça bem retratou o que é o silêncio da mulher e a resignação dela em relação à violência. Isso muito nos preocupa porque, por meio deste processo, acontecem coisas sérias com as mulheres. Vejo com muita preocupação. Por isso, o Tribunal de Justiça se esforça tanto em promover ações que esclareçam o dever que a mulher tem com ela mesma de trazer a público o que está acontecendo”, afirmou.

A peça faz parte do programa Justiça em Cena, que busca tratar de temas sociais de relevância, usando o poder da arte para promover reflexões e a valorização dos direitos humanos, unindo arte, história e Justiça em uma experiência única.  

                                                         Último dia de apresentação contou com plateia lotada que aplaudiu a peça de pé 
 

SF/MB