Dia do Bibliotecário: os profissionais que ajudam a encontrar a informação certa
"O bibliotecário é o funcionário da informação, ele trabalha para aprender a levá-la de forma mais simplificada ao usuário". A frase da diretora da Biblioteca do Tribunal de Justiça e da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ/Emerj) Desembargador José Carlos Barbosa Moreira, Elaine Costa Soares Silva, sintetiza a essência de uma profissão dedicada a organizar, preservar e democratizar o acesso ao conhecimento.
Celebrado em 12 de março, o Dia do Bibliotecário homenageia Manuel Bastos Tigre (1882–1957), poeta e escritor considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil. Instituída pelo Decreto nº 84.631, de 9 de abril de 1980, a data também reconhece o trabalho de profissionais que buscam “fazer a pessoa encontrar a informação certa na hora certa”, como explica Paulo Vicente, auxiliar administrativo da biblioteca e estudante de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
Para Paulo Vicente, o profissional de Biblioteconomia ajuda o pesquisador a encontrar a informação certa na hora certa
No Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), esse trabalho ganha forma em um espaço que reúne tradição histórica, inovação tecnológica e acolhimento ao público. Com um acervo que ultrapassa 183 mil exemplares, entre livros, periódicos, obras raras e materiais multimídia, a Biblioteca Desembargador José Carlos Barbosa Moreira atende magistrados, servidores, alunos da Emerj e o público interessado em pesquisa jurídica.
Um organismo vivo dentro do Tribunal
Para a diretora Elaine, que trabalha há mais de duas décadas na instituição, o local vai muito além da guarda de livros. “A biblioteca é um organismo vivo de verdade aqui dentro do Tribunal”. A definição reflete a dinâmica do espaço, que recebe diariamente estudantes, pesquisadores e profissionais do Direito em busca de informações que podem contribuir para pesquisas acadêmicas, preparação para concursos ou fundamentação de decisões judiciais. A biblioteca oferece consulta ao acervo, empréstimo de obras e pesquisa especializada em doutrina, legislação e jurisprudência. O local também dispõe de salas de estudo em grupo, áreas de digitação, zonas de silêncio total e espaços voltados ao descanso e à concentração.
A diretora da biblioteca, Elaine Costa Soares Silva, trabalha há mais de duas década no TJRJ
O lado humano da informação
Para quem trabalha diariamente no atendimento ao público, a biblioteca é também um espaço de convivência e acolhimento. A analista de documentação e bibliotecária Marisa Aparecida, que atua na unidade há 33 anos, afirma que o aspecto humano da profissão é um dos mais importantes. “O que me define como bibliotecária é o lado humano da biblioteca”.
Segundo ela, muitas pessoas frequentam o espaço não apenas para pesquisa, mas também para estudar em um ambiente silencioso e propício à concentração, especialmente diante da dificuldade de manter a rotina de estudos em casa. Após a pandemia, a equipe passou a reforçar ainda mais essa dimensão de acolhimento. Os profissionais são preparados para atuar como bibliotecários de referência, oferecendo orientação técnica e apoio aos usuários que enfrentam a pressão de concursos ou pesquisas acadêmicas.
Bibliotecária Marisa Aparecida atua na unidade há 33 anos
Organizando informações em meio ao volume de dados
Nos bastidores, bibliotecários também realizam um trabalho técnico fundamental: a organização e indexação da informação jurídica. A bibliotecária Tamires Viana, responsável pelo serviço de indexação legislativa, coordena a produção do Boletim de Atos Oficiais, compilação diária de atos relevantes publicados no Diário Oficial. O material se tornou uma importante ferramenta de consulta, inclusive para profissionais externos, como advogados e pesquisadores. “A gente faz a informação ser acessada. Nosso papel é reduzir o ruído informacional e facilitar a busca do usuário”, afirma Tamires.
Bibliotecária Tamires Viana, responsável pelo serviço de indexação legislativa
Tradição que atravessa mais de um século
A história da biblioteca acompanha a própria trajetória do Judiciário fluminense. Seu primeiro registro remonta a 1890, com o Decreto nº 1.030, que organizou a Justiça do então Distrito Federal após a Proclamação da República. Ao longo das décadas, a instituição passou por diferentes sedes, funcionando no Palácio da Justiça e na Lâmina I do Tribunal até ser transferida, em 2006, para a Lâmina III da Rua Dom Manuel, no Centro do Rio. Já a biblioteca da Emerj foi criada em 1991, inicialmente formada por doações de juristas, e passou a integrar o acervo do Tribunal em 2017, com a unificação das duas bibliotecas determinada pela Resolução TJ/OE/RJ nº 01/2017. A integração reuniu dois importantes acervos jurídicos, consolidando um espaço que une memória institucional e formação acadêmica.
Tecnologia que transformou a pesquisa
A evolução tecnológica também mudou profundamente o trabalho dos profissionais das bibliotecas jurídicas. A bibliotecária Marisa lembra que, no início da década de 1990, a busca por informações exigia um esforço muito maior. “Se precisássemos de um texto em italiano, por exemplo, era necessário enviar um pedido pelo correio para instituições na Itália. Hoje, conseguimos acessar praticamente tudo de forma imediata pela internet ou por redes de cooperação entre bibliotecas”, conta.
Patrimônio jurídico e memória
Além do apoio à pesquisa, a biblioteca também atua na preservação da memória jurídica. O acervo reúne obras desde o início do século XVII e inclui coleções de juristas importantes, como Sobral Pinto, além de publicações históricas em diferentes idiomas e uma coletânea de Constituições brasileiras, do período colonial à República. Em 2022, o trabalho de preservação foi reconhecido nacionalmente com o primeiro lugar no Prêmio Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Memória do Poder Judiciário, na categoria Patrimônio Cultural Bibliográfico, por um projeto de digitalização e disponibilização online de obras raras.
Para o analista Paulo Vicente, o trabalho do bibliotecário continua tendo um objetivo simples e essencial. “Aqui a gente precisa manter sempre um equilíbrio entre o histórico e o moderno. Como atendemos muitos alunos da Emerj, há uma necessidade constante de atualização do acervo, mas também temos a responsabilidade de preservar obras que fazem parte da memória jurídica”, afirma.
Em um cenário marcado pela velocidade da informação e pelo avanço das tecnologias digitais, o trabalho dos bibliotecários permanece essencial para transformar dados dispersos em conhecimento acessível. No TJRJ, esses profissionais seguem atuando nos bastidores para garantir que magistrados, pesquisadores e cidadãos encontrem, entre milhares de obras e documentos, a informação certa no momento certo.
VM /SF
Fotos: Rafael Oliveira / TJRJ