Literatura: autora de “Um defeito de cor” é destaque no Centro Cultural
Escritora Ana Maria Gonçalves fala durante evento "Do Direito à Literatura", organizado pelo Centro Cultural do Poder Judiciário
A primeira mulher negra e a mais jovem a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL), escritora e autora do renomado livro Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves, foi a convidada do Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ) para o evento Do Direito à Literatura, em celebração ao Dia Internacional da Mulher. A conversa com um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea foi realizada no Espaço Cultura na Justiça, localizado no Edifício Desembargador Caetano Pinto de Miranda Montenegro.
O livro, com quase mil páginas, que foi vencedor do prestigiado Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, já foi tema de samba-enredo no Carnaval de 2024 e manteve-se no topo das vendas. O romance é considerado um dos mais importantes da literatura brasileira no século XXI.
Imaginação como ferramenta de transformação
A escritora Ana Maria Gonçalves destacou o papel da imaginação como ferramenta de transformação. Segundo ela, imaginar e criar permitem revelar diferentes realidades e, a partir disso, contribuir para a construção de um mundo melhor, com mais compreensão e reconhecimento das diversas experiências.
“Esse livro tem caráter de formação. Um defeito de cor é um livro que eu queria ter lido e não encontrei e, por isso, o escrevi. Foi uma obra que me ajudou a me formar como mulher negra. Durante muito tempo, tive essa identidade questionada. Escrever o livro foi, para mim, um processo de reafirmação”, completou.
Personagem inspirada em revolucionária
A obra conta a história de Kehinde, mulher africana sequestrada e escravizada na Bahia ainda na infância. A protagonista retorna, já adulta, ao país de origem após conseguir a alforria. Anos depois, decide voltar ao Brasil em busca de um filho perdido. Nesse percurso, revisita as dores da escravidão e o período de formação da sociedade brasileira. A personagem é inspirada em Luísa Mahin, revolucionária de Salvador em 1835, ligada à Revolta dos Malês e apontada como mãe do abolicionista Luís Gama.
Durante o encontro, a autora abordou como aprendeu a narrar experiências de uma geração a outra como parte de seu processo evolutivo.
“Quem pode contar a própria história, quem pode falar do seu tempo, com certeza terá, no futuro, melhores condições de vida, porque pode se colocar na sociedade. Cada um poder falar de si e ter voz própria e, a partir daí, por meio de um processo de imaginação que também vem da literatura e da leitura, é possível imaginar futuros melhores.”
A conversa contou com a participação da pesquisadora e integrante do gabinete de direção do CCPJ, Roberta Celli Moreira de Araújo, que fez perguntas e debateu o livro e futuros projetos da escritora.
VS/SF
Fotos: Rafael Oliveira/TJRJ