Livro e debate destacam acusação e cancelamento no Centro Cultural
Da esquerda para direita: professor Agostinho Ramalho Marques Neto; professora Allana Marques; professor Luã Nogueira Jung; juiz Rubens Roberto Rebello Casara; e professor Giuseppe Pietro Buono Nardelli Dellova
O Observatório de Pesquisas Felippe de Miranda Rosa (OPFMR), do Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ), promoveu, nesta segunda-feira, 22 de junho, no Espaço Cultura na Justiça, o lançamento e o debate da obra "Denuncismo: Ódio e Ressentimento na Era do Linchamento Moral". O livro, de autoria do juiz Rubens Casara e da professora Allana Marques, foi o centro do encontro "Acusar: uma Paixão Nacional", com a presença dos próprios autores.
A discussão chamou atenção para a banalização do ato de acusar, como destacou o juiz Rubens Casara, ao início de sua apresentação: “Acusar uma pessoa se tornou banal. A sociedade acusa em busca de curtidas — e acusar, muitas vezes, equivale a condenar para sempre.”
A presidente do conselho gestor do CCPJ, desembargadora Cristina Tereza Gaulia, destacou como a cultura deveria ser reinserida com mais presença na sociedade para ser o antídoto contra esses novos tipos de violências. Ela defendeu que aulas tradicionais sejam complementadas por experiências como cinema e teatro, capazes de romper paradigmas conservadores.
"As condenações sempre foram espetáculos públicos. Na Idade Média, faziam-se condenações como forma de extravasar determinadas funções que as pessoas tinham. Condenar acaba despertando muito mais engajamento, assim como nas punições públicas do passado, quando havia participação e envolvimento coletivo", disse a desembargadora.
A era digital e a busca por curtidas intensificam ainda mais esse ciclo de acusações e condenações, conforme observaram os palestrantes. Para o juiz Rubens Casara, no mundo atual a condenação ganhou um novo nome: cancelamento. O magistrado afirma que acusar se tornou prática corrente na sociedade contemporânea, tendo como objetivo explícito a condenação do outro.
"Hoje há uma antecipação para o momento da acusação. A pessoa fica feliz em formular uma acusação. Percebe-se que, em uma sociedade paranoica como a nossa, formular acusações leva à obtenção de likes", ressaltou o juiz.
Debatedor convidado, o professor Pietro Nardella-Dellova colocou como a desumanização do próximo é o que viabiliza o ataque e a exclusão. Segundo ele, a segregação e a categorização do "outro" impedem o diálogo e geram violência: "Uma vez que alguém é condenado, com ou sem razão, ele estará condenado para sempre.”
A partir do livro, o debate analisou como a acusação se tornou ponto central na cultura política e jurídica atual. A professora Allana Marques explicou que as acusações abusivas muitas vezes extrapolam o legítimo exercício da liberdade de expressão.
O psicanalista e professor Agostinho Ramalho, que também é pai de Allana, colaborou na construção do livro e refletiu sobre como acusar gera no acusador um sentimento de poder. Para ele, até mesmo pensar se tornou um ato perigoso nos dias de hoje.
VS/SF
Fotos: Rafael Oliveira/ TJRJ