Família Acolhedora: um lar de passagem, um futuro de esperança
O estudante Erick Costa foi motivado pela Família Acolhedora a acessar o ensino superior
O que você estaria disposto a fazer se soubesse que pode transformar a vida de uma criança? A técnica de laboratório Laide de Oliveira, há 12 anos, fez algo que alcançou mais de vinte vidas: abriu a sua casa para receber temporariamente crianças e adolescentes tutelados pelo Estado. Movida pela curiosidade de entender a dádiva do amparo, ela procurou a Prefeitura do Rio de Janeiro para conhecer o programa Família Acolhedora.
“Eu vi o caso de uma mulher que doou um rim para uma criança acolhida e queria entender a profundidade daquele amor. Na época, meus filhos eram pequenos e eu e meu esposo decidimos nos inscrever no programa, aceitando crianças da idade deles para facilitar a rotina. A infância não espera o amanhã, ela precisa ser cuidada hoje. Continuo no programa porque consegui enxergar um futuro para mim, para meus filhos e para a próxima geração por meio do cuidado”.
Filha e acolhidas da técnica Laide de Oliveira passeiam em shopping
A Família Acolhedora é um programa da prefeitura, em parceria com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), voltado ao acolhimento provisório de menores de idade vítimas de violação de direitos e afastados de suas famílias de origem por medida protetiva.
O acolhimento acontece na residência de famílias voluntárias previamente cadastradas e capacitadas, com acompanhamento técnico de assistentes sociais e psicólogos. As famílias também recebem um auxílio financeiro destinado a custear os cuidados com a criança. A bolsa é de R$ 1.400 e, em casos de crianças ou adolescentes que demandam cuidados especiais, é de R$ 2.030.
“A Família Acolhedora entra como uma família transitória que abraça a criança, mantendo uma vida e o convívio familiar. Naquele ambiente, ela aprende seus limites, potencialidades e aptidões. Ali, ela desenvolverá um autoconhecimento e aprenderá com o exemplo a ter empatia, responsabilidade e afeto”, disse a juíza titular da 1ª Vara de Infância e Juventude Protetiva da Capital do Rio, Lysia Maria Mesquita.
Um futuro possível
Erick Costa, de 22 anos, é estudante de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele ficou três anos em uma instituição pública até poder estar na mesma família acolhedora que suas irmãs estavam. Atuante em um movimento social de promoção de políticas públicas para jovens tutelados pelo Estado, Erick lembra como as francas conversas com as “tias” o despertaram para a construção do seu futuro.
“Quando criança, não me preocupava muito com os meus estudos. Um dia briguei com um menino na escola porque ele mexeu no meu material. Eu achava que a minha acolhedora iria brigar, me colocar de castigo. Porém, ela sentou comigo e me fez refletir sobre meu comportamento. Aquela conversa foi algo novo para mim. Então percebi: eu não era mais uma criança institucionalizada, era uma criança com uma família. Ela me motivou a prosseguir até eu chegar aonde estou hoje”.
No Estado do Rio de Janeiro, há 1.557 crianças e adolescentes em acolhimento institucional. No entanto, somente 8,03% estão em famílias acolhedoras, segundo dados do Censo Módulo e Criança e Adolescente de 2025, do Ministério Público do Rio. Atualmente, há apenas 121 famílias cadastradas no Serviço Família Acolhedora na Cidade do Rio – destas, 68 famílias acolhem 110 crianças e adolescentes.
A servidora estadual na área de segurança pública Alessandra Queiroz é uma daqueles que abriram lar para receber os pequenos durante a pandemia da Covid-19. De lá para cá, ela já recebeu seis crianças, sendo a maioria bebês. Dividindo seu tempo entre o trabalho, a criação do filho e o cuidado com os bebês, ela deu uma dica para quem deseja acolher.
“Acolher é um ato de amor. No entanto, isso exige uma grande responsabilidade. Cada criança tem um jeito e quando se trata de bebês, os cuidados são ainda maiores. Algumas pessoas têm receio de acolher devido ao apego. Mas, olha, não pensa no apego. Pense que seu amor pode salvar aquela criança, dando-a uma oportunidade de recomeço, de uma nova história. Nós somos adultos, conseguimos lidar com isso. As crianças, não. Elas são vulneráveis e precisam ser cuidadas”.
A servidora Alessandra Queiroz comemorou seu aniversário ao lado de três bebês que ela cuidou
Se você quer abrir a sua casa para ser uma Família Acolhedora, clique no link para conhecer mais sobre o programa e ter acesso aos canais de atendimento.
KB/IA
Foto: Arquivo pessoal / Rafael Oliveira/TJRJ