Autofit Section
Samba, documentos históricos e escravidão são debatidos no “Vozes da Memória”
Notícia publicada por Secretaria-Geral de Comunicação Social em 10/08/2026 13h05

A fotografia mostra seis pessoas posando em frente a um grande mural artístico colorido, em um espaço externo. O mural apresenta, em destaque, os rostos de duas pessoas negras, uma delas um homem com barba grisalha e a outra uma mulher com cabelos cobertos por um tecido branco e desenhos ornamentais no rosto. Ao centro, há também a representação de uma pessoa usando um pano branco sobre a cabeça e os ombros. O fundo do mural é predominantemente amarelo e contém textos escritos em árabe, em letras azuis. À frente do mural, seis adultos estão lado a lado, sorrindo para a câmera. Da esquerda para a direita, há uma mulher usando camisa amarela e calça branca; um homem de camisa clara, calça escura e óculos; uma mulher de vestido vermelho, com um crachá pendurado no pescoço; uma mulher de vestido vinho; uma mulher vestida de preto; e um homem de camisa azul, calça jeans e tênis. O grupo está atrás de uma estrutura metálica de proteção, formada por barras horizontais e verticais. A cena é iluminada pela luz do dia, e o mural ocupa praticamente todo o fundo da fotografia.

Da esquerda para direita: servidora do Napjus, Isis Saint'Clair; professor Sidney Chalhoub; servidora do Napjus, Tatiana Brandão; pesquisadora Jessica Costa; pesquisadora Alessandra Elias; e o presidente do Cogen 1º Grau, desembargador Wagner Cinelli

"O chefe da folia, pelo telefone, mandou me avisar. / Que com alegria, não se questione, para se brincar". 

Esses são os versos iniciais de "Pelo Telefone", primeiro samba gravado no Brasil, composto em 1916 no quintal da casa de Tia Ciata, a matriarca do samba carioca. O local, considerado o berço dos batuques, ficava na região da Praça Onze, onde hoje está localizada a "Pequena África", e recebia nomes que se eternizariam na música brasileira, como Heitor dos Prazeres, João da Baiana e Donga, este responsável por registrar a canção que, no ano seguinte, seria sucesso no Carnaval da cidade. 

Não muito distante dali, na Gamboa, o Museu da História e da Cultura Afro-brasileira (Muhcab) recebeu, neste sábado, 8 de agosto, a edição de 2026 do "Vozes da Memória", uma iniciativa do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) desenvolvida por seu Núcleo de Atenção e Promoção à Justiça Social (Napjus). No evento, intitulado "Arquivos da Liberdade e do Samba", historiadores e pesquisadores se reuniram para debater, a partir da música e de documentos jurídicos, como a preservação dos registros influencia o reconhecimento da história e do legado cultural da população negra. 

O presidente do Comitê de Promoção de Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual e da Discriminação no 1º Grau de Jurisdição (Cogen 1º Grau), desembargador Wagner Cinelli, classificou a atividade como fundamental. 

"O Tribunal tem os Cogens, voltados para a prevenção e enfrentamento à violência, ao assédio moral, ao assédio sexual ou a qualquer tipo de discriminação. Nessa vertente da prevenção, é fundamental que a gente fale sobre esses temas importantíssimos. A equidade racial é uma necessidade, pois a sociedade brasileira tem um débito muito grande em razão do que aconteceu no período da escravização", destacou o magistrado. 

Ações de liberdade e os arquivos do samba 

Após uma visita guiada pelo Muhcab, o encontro seguiu com rodas de conversa e recebeu convidados especiais. Um deles foi o historiador e professor da Universidade de Harvard Sidney Chalhoub, que detalhou sua metodologia de trabalho ao apresentar ao público a pesquisa que está desenvolvendo atualmente. Nela, Chalhoub faz um paralelo entre histórias de ficção, quase todas escritas por Machado de Assis, e os processos cíveis que tratam da liberdade de pessoas escravizadas. 

De acordo com o historiador, o objetivo é compreender como as histórias vividas por esses autores como cidadãos constituíram sua imaginação literária. 

"Tenho trabalhado bastante com processos que envolvem pessoas escravizadas. O trabalho dos arquivos de guardar e cuidar desse material é sempre muito importante. Estou muito feliz de estar aqui e acho que esse trabalho é fundamental, porque o direito à memória é fundamental à democracia. Sem direito à memória não há democracia que se sustente ao longo do tempo", afirmou Sidney, que utilizou o acervo do Tribunal de Justiça como uma das fontes para escrever o livro Visões da Liberdade: uma História das Últimas Décadas da Escravidão na Corte. 

Documentos como esses, utilizados pelo historiador, estão preservados pelo Arquivo Central do TJRJ, representado pelas pesquisadoras Jessica Costa e Alessandra Elias. Ao lado de Vinicius Natal, sambista e antropólogo, elas apresentaram o resultado de um trabalho feito pelo Grupo de Pesquisa Histórica (GPH) da Secretaria-Geral de Gestão do Conhecimento (SGCON). Entre os documentos encontrados estavam a partilha de bens de Tia Ciata, os inventários de Heitor dos Prazeres e João da Baiana, além da descoberta mais recente: o inventário de Donga. 

Lá, em meio aos valores recebidos por direitos autorais de suas composições, está registrado o samba Pelo Telefone, que, anos depois, seria regravado por Martinho da Vila em uma nova versão — que deixou de contar a história de um festejo para relatar uma denúncia feita por repórteres do jornal "A Noite" sobre a tolerância policial com jogos de azar na região da Carioca. 

O evento contou ainda com a presença da juíza Márcia Capanema; do presidente da Comissão da Verdade da Escravidão da OAB-RJ, Humberto Adami; do diretor da Divisão de Gestão de Documentos (Dideg) do TJRJ, Gilberto de Souza; e das servidoras do Napjus Tatiana Brandão e Isis Saint'Clair. 

PB/SF

Fotos: Rafael Oliveira/TJRJ