TJ do Rio inicia treinamento do projeto Mãos EmPENHAdas no Senac RJ
Notícia publicada por Assessoria de Imprensa em 19/08/2019 16:55

Angelice Pereira Machado da Silva, de 65 anos, trabalha há mais de 20 em salões de beleza como cabeleireira. A experiência na profissão faz com que tenha na memória várias histórias para contar. Nem todas felizes. A mais dolorosa aconteceu dentro de sua própria casa.

- Eu mesma fui vítima de violência doméstica verbal, física e moral durante 20 anos de relacionamento e não sabia a quem recorrer. Estou fora desse relacionamento há dois anos e consegui, com muita dificuldade, me recuperar através do trabalho, onde encontrei força para seguir adiante.

 

 

Para tentar dar um fim a um cenário de desrespeito e agressividade, foi lançado nesta segunda-feira, 19 de agosto, o programa Mãos EmPENHAdas Contra a Violência, uma parceria entre o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) e o Senac RJ. Especialistas da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica (Coem) começaram a treinar 200 instrutores de beleza da Região Metropolitana do Rio para transformá-los em multiplicadores da Lei Maria da Penha. Para a juíza Adriana Ramos de Mello (à esquerda), do I Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital, é o fim de quem ainda pensa que conversa de salão não passa de fofoca. A magistrada lembra que a Lei Maria da Penha está completando 13 anos em 2019, mas ainda existe a necessidade de aumentar a conscientização da sociedade em torno da importância da denúncia:

- Foi identificado que grande parte das mulheres vítimas de violência é de pessoas que trabalham em salões de beleza. É considerado um grupo bastante vulnerável e que precisa de capacitação. Além disso, o salão de beleza é o local que muitas mulheres frequentam e acabam dividindo experiências pessoais. O projeto visa qualificar o profissional a ajudar mulheres e atender as profissionais de beleza que também sofrem violência doméstica.

Para a cabeleireira e empresária Ana Paula Mendel, de 47 anos, a iniciativa é uma oportunidade de os profissionais enxergarem a cliente sob outra ótica. Ela conta que não foram poucas as funcionárias cujos maridos não aceitavam o horário de trabalho estendido nas sextas e sábados para atender ao aumento da demanda. Ana Paula relembra ainda um caso que teve proporções irreversíveis.

- Uma auxiliar de cabelo que trabalhava para a minha mãe, após o término do relacionamento, foi atacada pelo ex-namorado com um ácido que atingiu o corpo dela. Logo depois ele foi preso, mas ela ficou com o corpo deformado, mesmo após tratamento. Quando é uma funcionária nossa é mais fácil detectar o problema porque temos um contato diário. Mas com essa capacitação, nós, profissionais, teremos uma visão mais ampliada que permite uma aproximação sem invadir a privacidade alheia.

A psicóloga do Instituto Nacional da Saúde e especialista na área de enfrentamento da mulher, Cecília Teixeira Soares, explicou que o curso vai possibilitar detectar sinais em mulheres vítimas de violência doméstica.

- É muito perigoso traçar o perfil de quem sofre violência doméstica porque todas as mulheres estão expostas a vários tipos de violência. Mas é possível perceber os sinais através da depressão ou de sintomas físicos, como hematomas, para auxiliá-las e acolhê-las para que sejam encaminhadas aos serviços corretamente.

Durante palestra na cerimônia de abertura do curso, a major Claudia Moraes, subchefe do escritório de prevenção da Coordenadoria de Assuntos Estratégicos da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, ressaltou a importância da iniciativa:

- É necessário que a mulher não tenha medo de denunciar. O medo paralisa qualquer um. Muitos relacionamentos permanecem em função disso. A intenção com esse curso é também estimular que a mulher compartilhe essa angústia.

O treinamento vai acontecer durante as aulas regulares, que, no caso do curso de cabeleireira, tem duração de 400 horas no período de seis meses, na unidade Copacabana do Senac RJ (Rua Pompeu Loureiro 45). O Mãos EmPENHAdas contra a Violência foi desenvolvido pelo Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul e está sendo replicado pelo TJRJ. Para isso, além do Senac RJ, do Sesc RJ e do Coem RJ, também são parceiros o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim RJ) e o Sindicato dos Institutos de Beleza e Cabeleireiros de Senhoras do Rio de Janeiro (Sinbel). Tudo para que histórias como a de Angelice não fiquem mais impunes.

- Com base na minha experiência pessoal, vejo a importância do projeto para acolher quem passa pela mesma situação. O projeto me deixou muito comovida. Me sinto mais fortalecida para deixar de ser apenas ouvinte e passar a ajudar os outros – afirma Angelice.

SV/FS

Fotos: Divulgação