Restabelecendo a cidadania
Notícia publicada por Assessoria de Imprensa em 14/11/2019 21:20

Foi aos 12 anos, levado pelos pais, que o hoje administrador de empresas Fábio Azevedo Peluso visitou pela primeira vez a Ação Cristã Vicente Moretti, em Bangu, Zona Oeste do Rio. A instituição, fundada em 1961, dá assistência física e educacional a incapacitados físicos. Ao ver um jovem que não tinha braços e nem pernas, deitado em uma cama, mas que conseguia se comunicar através de sorrisos, Fábio se apaixonou pelo lugar.

- Aqui você chega e quando pensa em reclamar dos problemas vê a realidade dos outros, os quadros dramáticos. Eles dão uma lição de vida. Não saem da cama sozinhos, mas estão sempre com sorriso no rosto, não reclamam. Convivendo com eles passamos a ver que nossos problemas são mínimos – reflete o administrador.

 

Mobilização por documentos

Depois da especialização em administração hospitalar, ele decidiu ajudar a instituição. Sob a responsabilidade de um colegiado do qual ele faz parte estão 96 funcionários que assistem cerca de 600 pessoas com deficiência em ambulatórios. A unidade também acolhe 46 portadores de deficiência em regime de cuidado prolongado. E foi analisando a situação dos internos que Fábio descobriu uma triste realidade: a falta de documentos.

Era o caso de Jonathan Fialho, de 41 anos (foto). Vítima de paralisia infantil, ele está na instituição desde que os pais morreram, já que não tinha condições financeiras de se manter. Ele conta que gostaria de ter mais contato com os irmãos, que o visitam eventualmente, mas diz se sentir acolhido na associação e que não há possibilidade de ficar triste no local.

- Aqui eu estudo, canto, danço e participo de brincadeiras. Adoro as festas típicas que nos proporcionam. Mas a falta de certidão de nascimento me incomodava.

Celso Francisco dos Santos, 63 anos, também não tinha certidão de nascimento. Com paralisia cerebral, que provocou dificuldades de locomoção e de aprendizado, foi encaminhado ao local após a morte da mãe.

 

Ônibus faz parada especial

A diretora de Assistência Social Maria Altina explica que sem a documentação, qualquer iniciativa para ajudar os internos esbarrava nas limitações legais.

- As assistentes sociais precisavam dar uma ajuda para a Casa e eram necessárias as certidões. Sem elas, a gente não consegue fazer nada.

Ao saber que o ônibus do Programa Justiça Itinerante do Tribunal de Justiça do Rio estava estacionado na favela do Batan, em Realengo, Fábio não teve dúvidas: foi ao local e solicitou a ida da unidade à instituição. Era um pedido de atenção especial. E deu certo!

- A vinda do Justiça Itinerante foi um marco na história da instituição. As dificuldades de curatelas, certidões, documentação, foram sanadas. Ficamos espantados quando vimos a estrutura, com juíza, promotor, a equipe toda completa aqui à nossa disposição para viabilizar a cidadania de tanta gente que circula aqui. Tanto dos internos quanto daqueles que frequentam o ambulatório, funcionários de baixa renda, ou seja, todos acabaram se beneficiando.

 

“A vinda da Justiça Itinerante foi um marco na história da Ação Cristã Vicente Moretti. As dificuldades de curatela, certidões, documentação foram sanadas.” Fábio Azevedo Peluso (foto)

 

Caminhos para novas vidas

O administrador cita o caso de uma ex-funcionária cujo companheiro estava com câncer terminal. Ela queria regularizar a união, mas não conseguia. Graças ao Justiça Itinerante, o casamento aconteceu – um mês antes da morte do companheiro.

O Programa do TJRJ também ajudou a coordenadora Vera Lúcia da Silva Lopes, 54 anos, a realizar um sonho: adotar um dos internos da instituição. Ela, que já tinha dois filhos e um neto, decidiu incluir na família Luiz Felipe de Souza, de 25 anos. Portador da Síndrome do Alcoolismo Fetal - quando a mãe é diagnosticada com alcoolismo durante a gravidez -, desde muito cedo o jovem teve uma história de abandono.

Vera conta que o carinho por Luiz surgiu quando ela foi trabalhar no lugar, há 11 anos. O estreitamento dos laços veio com as idas do rapaz, nos fins de semana e em datas festivas, para a casa dela.

- Durante a convivência começamos a ter um bom relacionamento, como se fosse mãe e filho. Então, perguntei à assistente social se poderia dar entrada num processo de adoção. A Justiça Itinerante me ajudou bastante, a parte da adoção foi rápida.

Para Maria Altina, que trabalha desde 2003 na Ação Cristã Vicente Moretti, o Justiça Itinerante mudou a realidade do lugar:

- Proporcionar uma certidão é mostrar que somos todos iguais, que eles não são invisíveis diante da população e do mundo.

De acordo com a juíza Maria Cristina de Brito Lima, o Justiça Itinerante aproxima o Judiciário do cidadão, fazendo-o se sentir parte da sociedade. A magistrada considera gratificante proporcionar direitos básicos às pessoas.

- É recompensador para nós, juízes, conseguirmos tornar real os anseios mais legítimos das pessoas, caso do nome no registro. Nesses 26 anos de magistratura, sempre me emociono em tornar possível esses pleitos, especialmente porque eles transformam a vida das pessoas.

 

SV/FS

Fotos: Brunno Dantas/ TJRJ